Artesanato empodera mulheres brasileiras com vendas de peças de decoração online

Artesãs de todo o país ganham espaço no mundo das lojas virtuais, com a ajuda de coletivos femininos

Artesanato empodera mulheres brasileiras com vendas de peças de decoração online

A decoração de uma casa diz muito sobre a personalidade do morador. E uma tendência que vem crescendo cada vez mais é o uso de peças decorativas de artesanato. Hoje em dia, existem lojas virtuais que realizam profundos trabalhos de pesquisa sobre as mais diversas manifestações artesanais espalhadas pelo país. E os coletivos femininos têm se tornado ferramentas geradoras de fonte de renda e empoderamento social pra diversas mulheres ao redor do país.

Alguns e-commerces são parte de trabalhos sociais importantes, que buscam valorizar o trabalho manual, especialmente de mulheres de comunidades nos mais distantes recantos do Brasil. Pessoas que reproduzem técnicas centenárias e que tiram seu sustento da venda de seus trabalhos.

Ou seja, quando você compra uma peça de artesanato, além deixar a sua casa mais bonita, com algo único e cheio de histórias, você ainda ajuda a melhorar a vida dessas pessoas.

Mãos pelos quatro cantos do Brasil

O projeto social Mãos é um dos mais atuantes no mapeamento desse tipo de trabalho. Idealizada e fundada por Camila Pinheiro, a iniciativa tem um ateliê itinerante, que viaja o Brasil e se instala em comunidades pra produzir peças co-criadas com mulheres dos locais por onde passam. E a comercialização, posteriormente, é feita seguindo as práticas do comércio justo. Com lucro revertido pra sustentabilidade e financiamento do próprio projeto e ações locais.

Artesanato - Camila

“No Mãos, a gente faz pesquisa de saberes ancestrais, com mapeamento, articulações com ONGs ou organizações privadas, realizando impactos positivos. O atelier surgiu como uma forma de financiar as nossas pesquisas, uma vez que esse mapeamento é feito de forma independente”, explica Camila.

De acordo com a idealizadora do projeto, um dos objetivos é difundir os trabalhos e abrir mais espaço pra que as artesãs possam vender suas peças. Além disso, Camila busca mesclar a tradição de técnicas passadas de geração em geração com a contemporaneidade do design moderno.

“O que é artesanato? O que é arte? O que é design? Queremos colocar tudo numa mesma linha de hierarquia. Os produtos são bem experimentais. A gente preza sempre por manter a identidade do lugar que visitamos. E criar coleções a partir desse ofício”, conta a empreendedora.

Artesãs do Vale do Jequitinhonha

Um dos projetos recentes, que tem coleção à venda na loja virtual do Mãos, foi criado numa comunidade com 40 artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Camila ficou um mês morando no lugar, na casa de uma das artesãs, e trabalhou na co-criação das peças.

Filtro - decoração

“A região é muito conhecida por peças de cerâmica. E uma coisa que fazem muito lá são filtros de barro. E aí, nós buscamos passar uma mensagem com os produtos, manifestar algumas questões sociais e ambientais. O Vale do Jequitinhonha já é uma região muito seca. E sofreu com a grande atuação de empresas exploradoras de eucalipto, que puxa muita água do solo. Eles já faziam o filtro de barro lá há muitas gerações. E nós ajudamos a criar um novo desenho, que representasse essa realidade”, explica Camila.

Peças de artesanato

Na loja virtual, o projeto Mãos tem algumas peças em estoque e outras acabam sendo feitas por encomenda, de acordo com a demanda. E a precificação dos produtos é uma das questões de maior atenção por parte de Camila.

“A gente procura fazer uma consultoria pras artesãs na precificação, levando em conta matéria-prima, a mão de obra e as horas gastas. E a gente não negocia nunca com a artesão. Pagamos o preço que ela cobra pela peça”, diz a empreendedora, que justifica o preço alto de algumas peças: “se o produto artesanal for barato, alguma coisa está errada. Alguém não está ganhando nessa história. São peças únicas, feitas à mão. Estamos tentando até criar coleções com técnicas mais simples, menos demoradas, pra ter coisas mais baratas. Mas consideramos que é importante pagar bem toda cadeia que trabalha”.

O início do projeto

Formada em Comunicação Social, Camila trabalhou por muito tempo na área, em editoras de revista, agências e produtoras de evento. Mas, em paralelo, sempre se interessou pela economia criativa e trabalhava de forma voluntária em projetos sociais. Em 2015, saiu de um emprego numa editora e foi viajar. E foi nessa época que teve a ideia de criar o Mãos.

“Fiquei seis meses fora. E descobri uma ONG, em Londres, que dava aulas de bordado para mulheres em situação de vulnerabilidade. Eram refugiadas, mulheres que sofreram violência doméstica, entre outras. E foi um grande estalo. Aquelas mulheres contavam sua história pelo bordado. E eu achei esse curso por acaso. Queria fazer um curso de bordado e esse era o único que eu podia pagar. Só lá vi o que era. E fiquei muito interessada em entender as histórias delas. Depois, fui pro Marrocos, onde tive contato com mulheres que trabalham com tear”, conta Camila.

Quando voltou pro Brasil, em 2016, Camila já começou a escrever o projeto e mapear as possibilidades pro Mãos. E as coisas começaram a acontecer.

“Hoje é o meu trabalho. Minha renda vem também de serviços que eu presto nessa parte social. Eu dou aula pra uma ONG do Rio de Janeiro, a Rede Asta, da qual sou coordenadora. Presto serviço pra organizações e tenho os projetos das coleções com as artesãs”.

Outra iniciativa feminina

Outro coletivo formado apenas por mulheres e voltado pro artesanato é o Clube do Bordado. Amanda Zacarkim, Camila Gomes Lopes, Laís Souza, Marina Dini, Renata Dania e Vanessa Israel criaram o empreendimento a partir do bordado. O objetivo era abranger a criação e produtos exclusivos, oficinas, cursos e eventos pelo Brasil e pela Europa.

Além disso, elas produzem conteúdo original multiplataforma e o desenvolvem projetos que visam resgatar os saberes e fazeres dos trabalhos manuais. A intenção do coletivo é usar as redes sociais para compartilhar conhecimento e experiências, abrindo caminhos para a educação e o empoderamento por meio do fazer com as mãos.

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